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Pensamentos aleatórios

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2 de julho de 2013

Lula versus Dilma

Publicado originalmente na revista Época, de 30 de junho de 2013.



Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa?

Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar?

O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que “Sarney não pode ser julgado como homem comum”... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, “o novo”... O Lula que se uniu “aos picaretas do Congresso”... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas?

Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.

A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de “mãe do PAC”. Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.

O Lula presidente se lamentava da “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo. Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT. E por tantas bandeiras no ar. A ética. A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos. As creches, o transporte de massa. Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.

Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz. Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.

Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão – e os dólares – com a política partidária? Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um “recall” nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos? Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros?

Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares. Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de “evangélica”. Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.

E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer “barbeiragens” na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente.


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23 de dezembro de 2012

O fim do mundo (Marco) Maia




Mais um texto ótimo da colunista Ruth de Aquino, disponível no site da revista Época (http://revistaepoca.globo.com/palavrachave/ruth-de-aquino/), que compartilho abaixo:

O fim do mundo Maia

Ruth de Aquino - Revista Época - 21/12/2012

Ruth de Aquino
Se você estiver lendo esta página, é um sinal de que o mundo não acabou no dia 21 de dezembro. Mas a profecia (Marco) Maia do Juízo Final foi levada a sério pelo Congresso. Nossos representantes da Câmara e do Senado decidiram antecipar o fim dos tempos... de trabalho. Entraram em greve branca e bateram o pezinho, recusando-se a votar qualquer coisa, até mesmo o Orçamento de 2013. Reconheceram que existe um juízo final – do Supremo e da Constituição. Já é um bom presságio.

Não resistiu a uma noite e um dia aquela pantomima toda – de arcas gigantes para a resistência ao STF e calhamaços de 463 páginas com questões essenciais, proteladas e esquecidas ao longo de 12 anos. Alguém deve ter avisado aos congressistas que ainda não é fevereiro, mês de Carnaval e desfiles alegóricos. Tiraram as máscaras. É dezembro, é Natal.

Hora de parar tudo porque faz muito calor, e a preguiça remunerada dos deputados e senadores é mais sagrada que os royalties do petróleo ou os coleguinhas condenados no mensalão. Hora de aproveitar o 14º e 15º salários pagos por nós e usufruir todas as ajudas extras que tornam o Congresso brasileiro um dos mais caros do mundo.

Eu queria decretar recesso de colunas políticas. Sério. Queria aliviar a pressão e apostar na tolerância. Queria escrever uma carta ao Papai Noel, com pedido de educação para todos, pois isso sim é urgente. É inaceitável que quase metade dos adultos brasileiros, de 25 anos ou mais, não tenha concluído o ensino fundamental, como acaba de revelar o IBGE. Educação é o primeiro passo para a cidadania plena e o voto consciente. 
Queria também desejar a você, leitor, e a sua família 3.060 votos de paz e felicidade – mas os 3.060 vetos atravessaram minhas boas intenções. O ridículo da situação me obriga a pedir ao Papai Noel no ano que vem um Congresso mais ativo e menos guloso. Um Legislativo que não se desmoralize publicamente.

Os números traduzem a irresponsabilidade infantil do Senado. A gráfica imprimiu 416.700 páginas para compor cédulas que acabaram todas no lixo. Gráfica e marcenaria trabalharam em regime de plantão para construir cenário e o enredo da escola de samba que parou no meio da avenida. As dez urnas estavam enfileiradas, como testemunhas toscas da loucura parlamentar. E nós, como sempre, pagamos toda a encenação.
Pedimos então ao Papai Noel que o Congresso não rasgue contratos estabelecidos – porque fica feio. Que não se apresse a votar apenas para inchar os gastos públicos, abrir vagas sem concurso, aumentar seus próprios salários e reduzir para três dias semanais o expediente em Brasília. Que entenda que quem cassa os direitos políticos de congressistas não é o Supremo Tribunal Federal, mas a conduta equivocada e criminosa de cada deputado ou senador. Uma sociedade que se bateu pela Ficha Limpa rejeita condenados como seus representantes.

Torço para que esteja certa a autora do livro 2012, las profecias del fin del mundo, a jornalista mexicana Laura Castellanos. Ela entrevistou antropólogos e historiadores. O apocalipse em 21 de dezembro não foi, segundo ela, previsto pelos maias. A visão do fim do mundo com a chancela de uma civilização antiga acabou se tornando muito popular. Uma peça de marketing com um benefício concreto: rever valores. Segundo o livro de Castellanos, as profecias maias não se concentram em catástrofes. Elas preveem “o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa”.

Queria acreditar. Talvez, no íntimo, acredite. Nada como olhar a perspectiva do fim como um recomeço. Tenho lido artigos de colegas que, com a chegada da velhice, se tornaram arautos do apocalipse. O pessimismo e a desesperança incomodam. Tenho medo de que os jovens se contaminem. Alguns desistem de ter filhos, porque sonhavam com um mundo melhor. Mas a violência, os massacres, a ignorância, a fome, as guerras, os genocídios – tudo isso sempre existiu. Não é invenção de agora.

Também me irrita a mania de alguns velhos – jornalistas ou não – de achar que o mundo acabará quando eles morrerem. É muito egocentrismo. É fácil achar que o baile é ruim só porque somos barrados nele, por extinção de prazo de validade. Se hoje chegamos aos 90 anos, temos não só o direito, mas a obrigação de sonhar. Pelos filhos, netos e bisnetos.

Como os parlamentares também têm família, sugiro um retiro espiritual ou moral para expurgar os pecados e pensar nas lições do ano que termina. Em 2013, já temos uma notícia boa e uma notícia ruim. José Sarney sai de cena. Renan Calheiros entra em cena. O Senado troca seis por meia dúzia.

Reclame, mas não seja chato. Melhor ser um indignado otimista do que um resignado deprimido. Já escrevi isso aqui antes. Vale repetir antes que o mundo acabe.