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Pensamentos aleatórios

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1 de agosto de 2017

O Governo Temer e a tatuagem de hena do deputado

Por Leonardo Sakamoto


Causou frisson na internet a imagem do deputado federal paraense Wladimir Costa, do Solidariedade, ostentando, no ombro direito, uma tatuagem com o nome de Temer e uma bandeira do Brasil. Ele explicou ter pago R$ 1200,00 em seis vezes por ela e que a homenagem era real. E definitiva.

Quando as redes sociais questionavam o gosto ético e estético do parlamentar, colegas jornalistas trouxeram à tona a opinião de especialistas: a tatuagem, mal feita, seria de hena, produto que sai da pele com o tempo.

Dada a irrelevância do tema, ninguém irá investigar se a tatuagem é ou não legítima. Mas a história, que vai entrar para o extenso anedotário político nacional, tão carregada de simbolismo e representatividade, é uma grande alegoria do governo federal e de suas relações políticas e econômicas.

O apoio à manutenção de Michel Temer não tem sido dado, mas tem um custo. Seja através da concessão de emendas milionárias, da nomeação de aliados para cargos públicos com controle de orçamento ou da promessa de apoio a projetos de leis oportunistas que farão o país regredir a padrões da Idade Média. E nisso, acreditem, as bancadas da bala (segurança pública), da bíblia (do fundamentalismo religioso) e do boi (ruralista) são muito boas em garantir.

Políticos não são comprados, mas alugados. O apoio dura enquanto for regado com recursos financeiros. Se a torneira seca, por maiores que tenham sido as juras de fidelidade, o apoio desaparece. Lembrando que, como bem disse o cientista político Vinícius de Moraes, juras de amor são infinitas apenas enquanto duram.

E tal como acontece em uma camisa de futebol ou um macacão de piloto de automobilismo, o caminho do ombro direito fica livre para ser ocupado por outro patrocinador, por quem pagar mais. De fato, não é o ombro que está à disposição para ser arrendado. Mas a voz. A consciência. A honestidade.

Temer recebeu dezenas de deputados para convencê-los a votar contra a admissão da denúncia por corrupção passiva contra ele no Supremo Tribunal Federal. Wladimir Costa expôs, sem rodeios, como funciona o sistema de fisiologia que compra deputados. Uma coreografia sutil: o ocupante do Planalto choraminga sobre a denúncia e os parlamentares choramingam sobre suas demandas. Ao final, todo mundo fica feliz - menos o cidadão que banca com seu sacrifício aquela apresentação artística. "Faço cara de coitadinho para ele", explicou Wladimir Costa, de acordo com reportagem de O Globo.

O problema é que os impactos desse mercado a céu aberto vão perdurar por mais tempo do que uma tatuagem de hena. A partir do momento em que regras, normais e leis são ignoradas em nome da manutenção de uma parte do poder político e de uma agenda do poder econômico, envia-se uma mensagem à sociedade: não há limites. Ou seja, as instituições que nos mantém coesos como país não valem mais, vigora agora a lei do mais forte. Ou do mais esperto.

O ocupante do Palácio do Planalto, cioso de como sua biografia, acredita que será lembrado para sempre como um grande reformista. Equivoca-se. Não tendo pudores de conspirar a céu aberto pelo impeachment de sua antecessora e de transformar o cargo mais importante do país em uma feira livre em nome da preservação do próprio pescoço e de seus aliados, sua reputação não resistirá ao tempo. Muito menos a uma boa lavagem pública com água e sabão. Tal qual uma tatuagem de hena.

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12 de julho de 2017

A Lava Jato subiu no telhado...

Por Elder Dias.


Uma gravação incrimina o presidente da República, envolve congressistas e lança o País em mais um escândalo. Logo a seguir, surge o cenário em que o Palácio do Planalto nega qualquer culpa e passa a trabalhar para se preservar, mesmo diante das evidências: articula com deputados, oferece ministérios a partidos aliados e tenta acelerar todo o rito processual para evitar que o tempo trabalhe contra si.

Parece história recente? Parece. E até é, de fato. Mas também reconta outra trama, de 20 anos atrás. Em maio de 1997, gravações jogaram na berlinda a aprovação da emenda da reeleição na Câmara dos Deputados. Dois parlamentares, Ronivon Santiago e João Maia, confessaram ter vendido o voto a favor da reeleição por R$ 200 mil. O intermediador teria sido Sérgio Motta, então ministro das Comunicações e homem-forte do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – que jogava tudo para a aprovação da emenda constitucional. Pela lógica de hoje, haveria um prato cheio para a descontinuidade do mandato – o impeachment – e não por seu acréscimo por mais quatro anos.

O presidente da Câmara era um certo Michel Temer, homem da mais estrita confiança do presidente; o líder do partido governista na Câmara, um certo Aécio Neves. Para matar no nascedouro as pretensões de uma CPI – que chegou a ocorrer, mas durou apenas três horas –, o governo brindou o PMDB com duas pastas na Esplanada de Brasília, uma delas a dos Transportes, para um certo Eliseu Padilha. A outra foi o Ministério da Justiça, que caiu no colo do então senador Iris Rezende. Resultado: a “operação abafa”, como ficou conhecida a manobra, se deu no dia 16 de maio; seis dias após, a CPI era sepultada, com a renúncia de Santiago e Maia, ameaçados de cassação.

Eram outros tempos, sem Operação Lava Jato, sem Polícia Federal agindo de forma intensiva e por vezes até midiática e, principalmente, com uma Procuradoria-Geral cujo comandante durante os dois governos FHC foi Geraldo Brindeiro, conhecido também como “engavetador-geral da República – em tempo, uma das denúncias arquivadas por ele foi a da compra de votos para aprovação da emenda da reeleição.

Duas décadas depois, é impressionante a naturalidade com que a imprensa noticia as mesmas negociatas para sobrevivência do presidente flagrado em ato de prevaricação – para dizer apenas um dos crimes de responsabilidade cometidos por Michel Temer na temerária conversa noturna com o empresário espertalhão Joesley Batista.

Com todos os recursos tecnológicos, redes sociais e o olho invisível e presente do “big brother”, é incrível como a velha política teima em resistir à custa das mesmas velhas estratégias. Mais incrível ainda é que ela demonstre força para pôr em risco a maior investigação de todos os tempos sobre os altos círculos do poder. É isto: a Lava Jato pode, sim, estar no fim. Os sinais de alerta são vários.

É bem verdade que a operação nunca foi unanimidade e cometeu açodamentos, ilegalidades e exageros. A mão foi bem mais pesada contra o PT, o que seria, de certa forma, até natural, haja vista ter sido o partido que esteve no centro do poder durante mais de 13 anos. De qualquer forma, a população sedenta de uma política mais limpa, independentemente de coloração ideológica, via nela – e muitos ainda veem – uma chance de mudar o sistema.

Ocorre que o sistema é forte, antigo e resistente. E, pelas brechas deixadas pela investigação, vão surgindo as oportunidades para “estancar a sangria” e “fechar um acordo”, expressões trocadas entre o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e Romero Jucá (PMDB-RR) na conversa pouco republicana que fez o senador se tornar o primeiro ex-ministro da era Temer.

Ao contrário dos tempos do impeachment de Dilma, a Lava Jato já não tem o apoio unânime da imprensa hegemônica e é contestada frontalmente por figuras importantes do Judiciário. O principal adversário da operação nesse Poder é Gilmar Mendes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que passou a entender a investigação como uma anarquia promovida por Sérgio Moro e um bando de justiceiros.

Um passo importante para o enfraquecimento da Lava Jato foi a decisão da Polícia Federal de extinguir o grupo de trabalho exclusivo da investigação em Curitiba, depois de ter um terço de seu orçamento cortado pelo governo. Porém, o maior sustentáculo que dava poder à investigação e agora tem faltado, de certa forma, é o apoio popular. Não que ele não exista: as redes sociais provam que há ainda a sensação de que não acabou e que as pessoas “querem mais”. Mas falta “rua” para canalizar esse apoio de maneira efetiva e efusiva. Os milhões que pintaram de amarelo as principais avenidas do País para tirar Dilma Rousseff (PT) da Presidência não parecem tão dispostos a usar a mesma energia contra Michel Temer, Aécio Neves e todos os demais, mesmo com provas mais robustas de corrupção e malfeitorias. O temor é o mesmo das lideranças dos antigos movimentos pró-impeachment – dos quais o Movimento Brasil Livre (MBL) foi o principal – e tem muito mais a ver com política do que com economia: usam a muleta da necessidade de estabilidade do País para evitar agir de forma eticamente coerente e necessária, mas que poderia ter como efeito colateral o reforço à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, que está no meio do caminho entre a cadeia de Curitiba e a cadeira da Presidência.

Há vários procedimentos questionáveis, como o abuso do instituto da prisão preventiva e da delação premiada com grandes benesses, desde que seja entregue de bandeja alguém mais poderoso e mais “interessante”. Alguns chegam a dizer que as investigações tinham perdido força para as delações há tempos. O generoso acordo de delação fechado pelo procurador-geral Rodrigo Janot com a cúpula da JBS, deixando esta praticamente impune, foi claramente também um tiro no pé, em termos de credibilidade.

Mas a derrocada da Lava Jato veio pelo pecado que costuma derrubar as grandes empreitadas: a vaidade. Quando Deltan Dallagnol apresentou slides em Power Point para demonstrar que Lula era a cabeça de todo o esquema, se dizendo “convicto”, mas sem apresentar provas, já era sinal de que algo não andava bem com o ego dos envolvidos.

A Lava Jato não morreu. Ainda não. Mas, como diz a história da vizinha que não queria assustar a avó ao dar de uma vez só a notícia da morte do gato durante a viagem da velhinha, a operação “subiu no telhado”. E se tudo acabar em pizza, como há 20 anos, será apenas mais uma evidência de que, como Nação, definitivamente não sabemos fazer a coisa certa.

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21 de maio de 2013

O caso Richthofen de Catalão e a operação abafa

Que a violência vem crescendo em Catalão não é nenhuma novidade. Assaltos a mão armada, roubos de carro, furtos em residência, assassinatos... em sua grande maioria os crimes estão relacionados ao consumo e tráfico de drogas, infelizmente um fato nacional que também vem atingindo nossa cidade.

E entre todos esses crimes o que mais choca a sociedade é sem dúvida o assassinato. Mesmo quando a vítima e autor tem alguma rixa conhecida (como no caso de dívidas por drogas), ou tal acontecimento se dá por motivos passionais o impacto na sociedade é grande, pois é uma vida (ou mais de uma às vezes) que se vai. E quando o motivo é fútil a revolta popular é ainda maior, já que, teoricamente, é algo que poderia ser evitado sem perda de vidas. Mas se o motivo fútil revolta, o que não dizer daquele assassinato planejado, por motivação torpe e fria, cujo sentido (se é que existe) não é conhecido ou entendido por ninguém?! A esse tipo de crime está reservado o pior dos sentimentos de repulsa que a sociedade pode produzir e, em nível nacional, provocados apenas pelos crimes dos Nardoni (pai e madrasta que arremessaram uma criança pela janela) e pelo assassinato do casal Richthofen, cometido e planejado friamente pela filha do casal. Pois bem, aparentemente o surto de violência crescente em Catalão atraiu esse tipo de doença para nossa cidade, que desde sexta-feira (17/05) convive com a suspeita de ter sido tentado aqui um assassinato semelhante ao do casal Richthofen, planejado pela própria filha das quase vítimas.

A história é impressionante, quase inacreditável:  no dia 12 de abril deste ano uma jovem foi abordada de madrugada por dois meliantes na porta de sua residência, localizada na avenida 20 de agosto, próximo a Churrascaria Rancho Fundo. Os dois, armados com revolveres, adentraram sua casa, levaram dinheiro, jóias, armas de fogo e a fizeram refém, levando-a com eles em seu carro, um Fiat Siena, até as proximidades do cemitério São Pedro. Lá ela foi liberada pelos bandidos, mas acabou baleada na perna, provavelmente por ter corrido em fuga. Não bastassem o assalto, o roubo, o sequestro relâmpago e o tiro na perna, os meliantes não se deram por satisfeitos e antes de saírem da casa atearam fogo a um colchão, o que provocou um incêndio que se alastrou pela residência, onde dormiam três pessoas (os avós e o irmão da vítima). A sorte foi que os três despertaram e conseguiram acionar o Corpo de Bombeiros antes de serem vítimas do fogo e da fumaça. A jovem baleada foi socorrida e os familiares seguiram com a vida, deram esse episódio de violência como um pesadelo superado e destinado a ficar eternamente no passado.

Só que não!

O competente serviço de inteligência da PM de Catalão não descansou e desde o dia 12/04 vem procurando os suspeitos de cometer esse crime. Eis que surge a informação de um jovem (Heli Gonçalves Mitidiero Neto, de 26 anos) que há tempos vinha tentando vender uma espingarda, da marca Boito, mesma marca de uma das armas roubadas na residência. A polícia aborda o sujeito e, pelo registro da arma, confirma que é uma das que foram roubadas no dia 12. O grande sucesso dessa ocorrência não foi encontrar a arma e nem o meliante, que prontamente confessou o crime (talvez para evitar o interrogatório à la Tropa de Elite), mas sim a descoberta de que a vítima baleada na realidade seria a mentora do assalto, que posteriormente teria se transformado em tentativa de assassinato e que só não se consumou por "fraqueza" dos contratados, que não tiveram coragem de alvejar as três pessoas que dormiam e resolveram matá-las ateando fogo à casa. Da condição de vítima a jovem passou a ser suspeita e o que deveria ter ficado na lembrança apenas como um sonho ruim foi reavivado e passou a incomodar, tal qual uma ferida exposta.

O assunto foi a notícia do sábado. Blogs, sites, TV Anhanguera... todos deram destaque ao ocorrido e, como não poderia deixar de ser, também foi o tema mais comentado no Facebook dos catalanos. A incredulidade e a revolta eram totais, todo mundo tinha uma opinião a expor sobre o ocorrido e a natural comparação com o caso Richthofen não demorou a surgir. A tentativa de assassinato dos pais (ou avós e irmão), planejado pela jovem de classe média, não se sabe por quais motivos, repercutia e se alastrava rapidamente entre a população de Catalão. As incoerências da história inicial (roubo do Siena? tiro na perna? fogo no colchão?) encontraram nas explicações do jovem Heli um encaixe perfeito: o Siena e a vítima foram levados para justificar porque ela não conseguiu alertar os parentes do fogo e da morte iminente; o tiro na perna seria um artifício para não gerar dúvidas de sua condição de vítima; o fogo no colchão foi devido a falta de coragem dos rapazes em atirar nos dorminhocos. E o que parecia apenas mais uma assalto a mão armada se revelou um engenhoso crime desvendado pela Polícia Militar de Catalão.

Só que não!

As notícias referentes ao fato, veiculadas sábado nos sites e blogs de maior audiência, já no domingo à tarde não estavam mais online. O único blog que manteve a notícia (Blog do Badiinho) também era o único que tinha uma entrevista do meliante preso, onde este declarava todo o relatado anteriormente, mas que foi retirada do post, permanecendo apenas a versão da PM do interrogatório que, convenhamos, é bem menos interessante que a fala do sujeito preso. A PM também silenciou sobre o assunto, alegando tal procedimento para evitar prejuízos às investigações; mesma situação da TV Anhanguera e das rádios locais, que não deram atenção ao fato. E, o mais curioso, no Facebook o assunto também sumiu, como se nunca tivesse existido. No lugar de discutir supostas motivações, grande parte dos catalanos na rede social começou a postar mensagens de apoio (sem citar o destinatário), do risco de julgamentos precipitados, além de mensagens sobre a credibilidade que declarações de bandidos merecem. Enfim, não sei exatamente como isso foi articulado, mas o que ocorreu de sábado para domingo foi uma gigantesca e bem articulada operação abafa.

E porque fazer isso? O que a suposta tentativa de assassinar os pais (ou avós) esconderia para tantas pessoas se mobilizarem a promover o abafamento do caso, a ponto dos maiores sites e blogs da cidade retirarem do ar a divulgação do ocorrido? Se a jovem é inocente e está sendo envolvida nas mentiras de um meliante, porque ele está fazendo isso? Onde está o outro comparsa? Com quem está a verdade? Muitas questões, muitas dúvidas, mas que a falta de transparência e a operação abafa não ajudarão a esclarecer. 

Até o momento só existe uma certeza nessa história: alguém está mentindo. É preciso descobrir quem e porque tantos não querem mais falar no assunto, pois uma coisa é pensar que alguém teve a capacidade de desejar e pedir a morte dos pais; outra é pensar que alguém inventou isso para prejudicar uma única pessoa; e outra, muito mais grave, é pensar que parte da sociedade está protegendo essa pessoa, mesmo ela sendo culpada.

Família Richthofen, em foto tirada uma semana antes do assassinato de Manfred e Marísia