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Pensamentos aleatórios

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16 de junho de 2016

Temer e terceirização: empresários aplaudem, trabalhadores pagam o pato


Esta notícia é para você, caro amigo trabalhador, cara amiga trabalhadora, que abraçou patos amarelos, chamando-os de amigos, e acreditou no conto de que basta derrubar uma péssima presidente e um governo incompetente para o Brasil virar um lugar com rios de onde fluem leite e mel, cheio de unicórnios fofinhos e potes de ouro no final de arco-íris.

Durante um rega-bofe com nata do empresariado, em São Paulo, nesta quinta (16), o ministro da Casa Civil Eliseu Padilha foi ovacionado ao defender que o país precisa “caminhar no rumo da terceirização'', explicando que o projeto que permite isso deve ser votado com rapidez no Congresso Nacional.

Pergunta: Por que os empresários bateram palminhas?

Alternativas:

a) Porque eles acham importante que os trabalhadores que já estão terceirizados conforme a lei atual possam ter mais direitos garantidos?

b) Porque poderão economizar demitindo empregados contratados conforme em regime CLT e terceirizar, seja com profissionais que possuem suas próprias empresas individuais e não contam com os mesmos direitos, apesar de baterem cartão todos os dias (os chamados PJs), seja com cooperativas ou empresas menores que, não raro, contratam trabalhadores de forma precária e sem os mesmos direitos.

Se você optou pela alternativa “a'', volte duas casas e abrace novamente o pato. Você merece.

Se optou pela alternativa “b'', parabéns: você é consciente de que, aquilo que chama de direitos trabalhistas, está por um fio.

Algumas das forças políticas que dão sustentação ao governo Michel Temer estão pressionando por mais “flexibilidade'', menos regulação estatal, menos intervenção do Estado e mais liberdade entre as partes, patrões e empregados, na hora de contratar. Mudanças são bem vindas se podem melhorar a vida de ambos os lados, mas devem ser discutidas e evitadas se fragilizam ainda mais os mais fracos.

Que é o caso do projeto do qual falou Eliseu Padilha (PL 4330/2004), que amplia a terceirização e legaliza a contratação de prestadoras de serviços para executarem as atividades para as quais as empresas foram constituídas (atividades-fim) e não apenas serviços secundários, como é hoje.

Isso levará a um comprometimento significativo dos direitos trabalhistas, com perda de massa salarial e de segurança para o trabalhador. Situações que hoje oprimem certas categorias podem ser universalizadas e o Judiciário não terá condições de processar e julgar todas as ações trabalhistas. No limite, poderemos ter novos protestos sociais, quando milhões de trabalhadores perceberem que perderam salários e garantias e nem mesmo podem reclamar com o patrão.

Enfim, nada disso importa.

O que importa é vocês seguirem direitinho a frase de nosso líder Michel: “Não fale em crise, trabalhe''.
 
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11 de maio de 2016

Ponte para o Futuro ou Viaduto para o Passado?

Por Leonardo Sakamoto. 
 
 
Dilma fez um governo ruim que decepcionou quem a elegeu. Apesar disso, há muita gente boa trabalhando na administração federal para implantar e manter políticas públicas visando à efetivação dos direitos fundamentais – da mesma forma que também havia no governo Lula ou FHC.

Muitos não acreditam nisso e acham que tudo se resume a uma luta do bem contra o mal, em parte por culpa de um debate público enviesado, empobrecido e emburrecedor, que simplifica o que é complexo até perder todas as nuances. Rejeita-se toda explicação que não couber em dez segundos ou 140 caracteres porque é longa demais.

Bons profissionais, que colocam o bem comum acima dos interesses partidários, paroquiais ou individuais, passaram as últimas semanas analisando como garantir que certas políticas sociais, culturais, ambientais, trabalhistas não deixem de existir com a transição repentina, que será ratificada pelo Senado Federal nesta quarta. Não estou falando de programas mais visíveis, como o Bolsa Família, mas de centenas de ações que começaram com petistas ou tucanos e que ajudaram a tirar direitos pensados na Constituição Federal de 1988 do papel.

Conversei em Brasília com muita gente que está com profundas olheiras por articular e planejar no intuito de garantir a continuidade do que funciona bem.

Nessa hora, percebemos o quanto algumas de nossas conquistas históricas são frágeis, podendo ser derrubadas com mudanças na direção do vento – neste caso, o provável fim do ciclo “social-democrata''/''trabalhista'' (está entre aspas de propósito porque PSDB e PT deram novos significados a esses termos…), que se iniciou em 1994 e termina nesta quarta (11). Frágeis pela própria incompetência dos governos até aqui, que acreditaram que alguns avanços estariam consolidados.

Andando pelo corredores do Congresso Nacional, ouvimos listas e listas de leis que serão aprovadas nos próximos meses para “flexibilizar'' alguns desses direitos em nome do crescimento econômico rápido ou da garantia de vantagens para grupos que apoiaram a mudança política. A “Ponte para o Futuro'', do PMDB, pode ser, na verdade, um viaduto para o passado. Em outros casos, será mais fácil ainda, com a execução de programas minguando até permanecerem no mínimo patamar possível para que o governo não seja acusado de interrompê-los.

Em última instância, contudo, a diferença será garantida não nos gabinetes, mas nas ruas. Pois é o povo que vai dizer se uma lei ou um programa social deixará ou não de ser executado. Se não aceitar que determinado direito vire pó – como o direito de não ser escravizado em fazendas e canteiros de obras ou o direito de receber uma aposentadoria de, pelo menos, um salário mínimo por tantos anos trabalhados – terá que se mobilizar. E deixar claro que não aceita retrocessos.

Como mostram os instituto de pesquisa, como o Datafolha, a população mais pobre não foi às ruas nem a favor, nem contra o impeachment. Muito menos a maioria dos jovens que coalharam as ruas em junho de 2013. Estão em compasso de espera por não se verem representados pelo que esta aí. A dúvida é se, a depender de como soprar o vento agora, eles explodirão a fim de dizer “não'' para quem tentar suprimir os poucos direitos que têm.

De qualquer forma, inauguramos agora um momento delicado. Pelo macarthismo à brasileira que se espreguiça no horizonte, a luta por direitos voltará a ser caso de polícia. Ou, pior, de terrorismo.
 
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19 de abril de 2016

Bolsonaro é violento por ter audiência ou tem audiência por ser violento?


Por Leonardo Sakamoto
 

Bolsonaro é violento? Sim, ele é. Mas não é burro. E nem está sozinho.

Representa uma camada da população que divide com ele a visão de mundo e tem orgasmos múltiplos ao ouvir as estripulias de seu deputado. Estripulias que não vêm de rompantes do fígado, mas são milimetricamente calculadas para ganhar espaço na mídia, nas redes sociais.

Todos os pontos de vista merecem ter voz em uma democracia. O problema é que a visão de mundo de Bolsonaro e representados torna o diálogo e mesmo a convivência pacífica muitas vezes impossível. Um estranho paradoxo: Bolsonaro e representados defendem a antítese da democracia, apesar de só continuarem podendo se expressar livremente por conta dela.

No capítulo mais recente, em seu voto pelo impeachment, pouco depois de parabenizar Eduardo Cunha, homenageou o açougueiro e torturador Brilhante Ustra e celebrou o golpe militar de 1964.

Bolsonaro é causa e consequência da violência de nossa sociedade. Verbaliza a visão de uma parte que reproduz processos que mantém a opressão, a dor e o preconceito. Ou seja, o que me angustia não é ele e um grupo pequeno de gente com ideias cheirando a naftalina, mas que parte do Brasil está com eles. Nas rodas de amigos em bares, mas mesas de jantar com a família, na hora do cafezinho no trabalho ou no silêncio do banheiro, lendo as notícias do dia no tablet.

Mas, principalmente, entre os mais ricos. Como destacou Fernando de Barros e Silva, na revista Piauí, entre os que têm renda familiar mensal superior a dez salários mínimos (5% da população), Bolsonaro lidera a corrida presidencial na última pesquisa Datafolha. Em um dos cenários, atinge 23% desses eleitores. Entre os mais escolarizados, atinge 15% – atrás apenas de Marina Silva. Entre os que ganham dois salários mínimos, ele tem 4% – mas com potencial de crescimento porque, creio, ele não é tão conhecido nesse estrato social.

Bolsonaro tinha 29 anos quando Figueiredo deixou o Planalto para cuidar de seus cavalos. Ficou 15 anos no Exército e mantinha-se na Câmara dos Deputados devido à sua defesa dos direitos trabalhistas dos militares (pela quantidade de rifles que desaparecem dos quartéis no Rio e reaparecem nas mão do tráfico, verifica-se como os salários seguem vergonhosamente baixos). Daí, foi se destacando na defesa de assuntos simbolicamente relevantes para os seus representados.

Bons exemplos disso não faltam. Foi ele quem colocou um cartaz na porta de seu gabinete na Câmara com os dizeres “Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro”, zombando das famílias de vítimas da Gloriosa para encontrar as ossadas dos guerrilheiros mortos pela ditadura e enterradas em local que o Exército nega revelar.

Ou o machismo truculento presente na entrevista dada para a revista Isto é Gente, em 2000: “Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa. Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a frequentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. (…) Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas ideias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei''. Note o “que lhe dei''.

Outra frase de efeito: “O grande erro foi ter torturado e não matado” – esta dita após seminário no Clube Militar, no Rio de Janeiro, em 2008, contra manifestantes do Grupo Tortura Nunca Mais e da União Nacional dos Estudantes. Segundo ele, essa teria sido a melhor solução para evitar que, hoje, pessoas perseguidas pela ditadura pedissem indenização ou reclamassem a justa e correta abertura dos arquivos que contam o que aconteceu na época.

Menos “humano'' que o então seu colega de partido Paulo Maluf, que outrora sugeriu aos criminosos “estupre, mas não mate''.

Em um quadro de perguntas e respostas do programa CQC, veiculado há dois anos, compartilhou impressões sobre o mundo. Um filho que fuma maconha merece levar “porrada”. Ser um pai presente e dar boa educação garante que a prole não seja gay. E caso seus filhos se apaixonassem por uma negra, respondeu que eles eram educados e que não viveram em ambiente de promiscuidade, como a cantora Preta Gil, autora da pergunta. No dia seguinte, sua página trouxe uma justificativa: de que a pergunta foi “percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay''. Ah, então tá.

É claro que Bolsonaro e alguns militares da reserva (com a ajuda de alguns “estrelados'' da ativa) querem que a verdade e a Justiça permaneçam enterradas em cova desconhecida junto com assassinados pela ditadura. E, pelo que parece, que sejam enviados para as mesmas covas, os direitos conquistados a duras penas depois que a ditadura, que ele defende, caiu.

E tendo em vista os posicionamentos conservadores, machistas, homofóbicos, preconceituosos de grande parte da população brasileira e que são defendidos com unhas e dentes pelo nobre deputado e seu grupo, talvez você esteja do lado dele. E nem perceba.

Após seu voto violento, que fez apologia à tortura, um crime contra a humanidade, ele foi ovacionado nas redes sociais por aquela legião de pessoas que pouco se importa com a dignidade alheia.

Bolsonaro foi um dos principais beneficiados pelo processo que culminou na abertura de processo de impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados – ao lado de Michel Temer, claro. De congressista caricatural, ele já tem 8% do eleitorado. Em 2018, não duvidaria que ele parta de índices de 15% para a campanha presidencial.

Como disse aqui, nesta segunda, Bolsonaro ocupa um espaço de porta-voz de comentaristas de redes sociais, público insatisfeito pelo fato de que seus queridos preconceitos estão sendo atacados. Segue na mesma linha de Donald Trump, mas sem o mesmo charme ou recursos financeiros.

Ambos dizem que essa parcela não precisa se sentir mal ou de adaptar à evolução do mundo, que vem incluindo pessoas antes alijadas de seus direitos. Basta lutar contra a “ditadura do politicamente correto'', uma grande besteira, pois se ela de fato existisse, não haveria sem-tetos, gente passando fome, mulheres negras ganhando menos do que homens brancos, nem pessoas mortas por amar alguém do seu jeito.

Por fim, vale lembrar que os três primeiros colocados para a eleição, em 2014, de deputado federal do Rio de Janeiro – Jair Bolsonaro (6,10%), Clarissa Garotinho (4,40%) e Eduardo Cunha (3,06%) – bem como os de São Paulo – Celso Russomanno (7,26% do total de votos), Tiririca (4,84%) e Marco Feliciano (1,90%) – têm uma característica em comum: sabem se beneficiar da exposição midiática. Parte deles fez sua carreira na mídia e a outra conseguiu entender a lógica da cobertura política e, produzindo factóides, surfou nessa lógica, mantendo-se constantemente em evidência em seus mandatos.

Discordo das avaliações de que eles foram os primeiros apenas por conta de suas pautas conservadoras, a importância da exposição é fundamental. Eles souberam criar narrativas que são um prato cheio para nós, jornalistas, ávidos por registrar e transmitir discursos que, por fugir do que acreditamos ser a forma tradicional de fazer política, chamam a atenção e produzem audiência.

Aos leitores que se enquadram como cães de guarda do pensamento mais tacanho, que não compreendem que sua liberdade não pode ferir a dignidade do seu semelhante e torcem para que possam ser preconceituosos e segregacionistas sem medo de serem incomodados, três coisas: a) esqueçam, isso não vai acontecer; b) livros de história são muito baratos; c) deve ser muito cansativo defender tanto ódio o tempo todo. Sugiro férias.

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21 de dezembro de 2015

Dez dicas para não ser um leitor-cobaia nas redes sociais


Do Blog do Sakamoto: 
 
Dez dicas rápidas para você, leitor de redes sociais, não ser enganado na guerra cotidiana por corações e mentes que esta deflagrada na internet. Porque, em uma guerra, a verdade (se é que ela ainda existe) é sempre a primeira vítima:

1) Olhe sempre a data do texto – Há muita gente que, por inocência ou sacanagem, reposta links antigos como se o fato tivesse acabado de acontecer. Como o momento em que um fato ocorre é importante para a sua compreensão, a impressão que fica é que o problema se repete por incompetência de alguém num eterno Dia da Marmota.

2) Anônimo é coisa do capeta – A chance de uma denúncia anônima e sem a fonte da informação circulando no WhatsApp ser séria é a mesma de um jabuti escalar um poste de luz sozinho. Se recebeu, demonstre nojinho e desconfie.

3) Fora de contexto, sem chance – Quando alguém tenta desacreditar uma ideia, pinça uma frase ou uma imagem fora de seu contexto e a utiliza para construir seu argumento. Como parte das pessoas foi condicionada a agir como gado diante do discurso de quem confia, acaba acreditando no novo significado que o sujeito tentou impor com essa descontextualização. Ou seja, na dúvida, Google nele.

4) Não seja otário, leia – Ler um texto até o final é fundamental. O título, a foto e legendas não são capazes de trazer toda a complexidade de um argumento. Se não tiver tempo para ler, não compartilhe ou curta. Você pode, sem querer, estar difundindo uma peça de racismo ou de violência contra a mulher.

5) Desconfie dos argumentos de autoridade – Não é porque o papa ou a bispa Sônia disseram algo que você tem que acreditar. O mesmo vale para o presidente da sua associação de moradores ou o diretor do seu sindicato. Exija confirmação dos fatos ou vá atrás dela.

6) Cuidado com falsa relações de causa e consequência – Um fato que acontece depois do outro não necessariamente foi causado pelo primeiro. O atropelamento de um pônei não é, necessariamente, a causa de uma tempestade. Da mesma forma, a chegada de imigrantes não é necessariamente a causa de desemprego.

7) Não se deixe levar por quem escreve bonito – O texto pode até estar te xingando de uma forma doce e você nem vai perceber se não observar atentamente o significado das palavras que o autor escolheu. Além disso, fique atento: não é porque a pessoa escreve com certeza absoluta no que diz que está certa.

8) Cuidado com os sites fantasmas – Não é porque um site publicou um assunto com uma abordagem com a qual você concorde que ele é honesto ou faz bom jornalismo. Procure um “quem somos'' ou um “expediente'' e veja quem trabalha lá. Se não encontrar, desconfie.

9) A imagem nem sempre vale mil palavras – Até uma criança não alfabetizada é capaz de manipular uma foto com aplicativos online. Então, por que você acredita que uma imagem é uma prova irrefutável de um argumento? Ao mesmo tempo, ao editar um imagem, deixando partes dela de fora, exclui-se desafetos ou cria-se a impressão de multidões onde elas não estavam.

10) Leia coisas com as quais discorda
– Não é porque você não concorda com uma opinião ou informação presentes em um texto bem fundamentado que ele não merece ser lido. Considere que o mundo é mais complexo do que você pode imaginar e que a pluralidade de ideias, desde que não desejem a morte de ninguém, ajuda a crescermos como sociedade. O contrário disso se chama ditadura.
 
 
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8 de setembro de 2015

Brasil: ame-o, deixe-o ou ignore e faça de conta que não é com você


Do blog do Sakamoto:

Discursos nacionalistas empacotados e entregues em datas cívicas são tão válidos quanto uma nota de três reais. Melhor faria se o governo brasileiro, ao invés de financiar desfiles, enviasse o exército para proteger as comunidades indígenas no interior do Brasil, que estão levando um cacete de produtores rurais.

Aliás, no lugar de passarmos em revista nossas forças armadas, neste 7 de setembro, autoridades e população deveriam aproveitar a data e discutir medidas para que a cidadania deixe de ser monopólio de um pequeno grupo de abonados. Por que chamamos indígenas de intrusos, sem-teto e sem-terra de criminosos, camponeses de entraves para o desenvolvimento e trabalho escravo de efeito colateral do progresso? Por que choramos a tragédia de sírios enquanto chamamos refugiados haitianos de vagabundos por aqui?

Também poderíamos nos reunir nessa data festiva para acabar com o terrorismo de Estado – praticado durante os anos de chumbo da ditadura e aplicado diariamente nas periferias das grandes cidades para controle das “classes perigosas. Seja através da reforma das nossas polícias, seja através do ataque à impunidade de milícias, grupos de extermínio e policiais justiceiros.

Vestir-se de verde e amarelo, enrolar-se em uma bandeira e encher o carro de fitinhas não é necessariamente demonstração de amor a um país. Ao mesmo tempo, a independência de um povo passa menos por armas e tropas e mais pela ação para garantir a dignidade de quem vive no mesmo território, não importando quanto se tem no banco, a cor de pele, a religião, o sotaque, o posicionamento político, a identidade de gênero e a orientação sexual.

O melhor de tudo é que todas as vezes que alguém levanta indagações sobre o Brasil, que serve a poucos, essa pessoa é acusada de não amar o país, no melhor estilo “Brasil: ame-o ou deixe-o''.

Datas assim seriam ótimas para fomentar o conhecimento do brasileiro sobre si mesmo e, portanto, reflexão e ação. Mas me pergunto se estamos preparados para perceber que a imagem que construímos de nós mesmos é uma cascata da grossa e que somos – dos políticos, passando pelos empresários e cidadãs comuns – muito mais sujos e egoístas que acreditamos ser. E que o problema não é apenas outro, mas nós mesmos.

Eu aposto que, ao invés de irmos tomar banho, jogaríamos o espelho fora.

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27 de agosto de 2015

Sete mentiras que te contam para você amar cegamente seu país

Do blog do Sakamoto:
 
Muito cuidado com lugares-comuns feitos para ajudar a forjar ou fortalecer o “amor à pátria'', mostrando que somos iguais (sic) e filhos e filhas da mesma pátria (sic sic). Aceitar isso de forma acrítica é ignorar que a maioria é tratada como um bando de renegados, sem direito a nada além de gerar riqueza – para outros. Vamos a alguns deles:
 
1) A letra do hino nacional brasileiro não é uma das mais bonitas do mundo, ao contrário do que afirmam correntes que circulam na rede. Até porque é impossível mensurar tal coisa. Mas ainda temos tristes índices de iletramento.
 
 
2) Também é mito que a bandeira nacional (cujo verde não surgiu para representar “nossas matas'', mas sim a casa imperial de Bragança) é considerada uma das mais belas. Mas somos reconhecidos pelas altas taxas de desmatamento.
 
 
3) O povo brasileiro não é, necessariamente, o mais alegre do planeta. Mas é um dos campeões de desigualdade social e de concentração de renda.
 
 
4) A democracia racial, apesar de alardeada como exemplo planetário, não existe e, por isso, não nos define. O que nos explica são séculos de escravismo e suas heranças.
 
 
5) O Brasil não é o país que tem a mulher mais bonita do mundo. Até porque esse país não existe. Mas somos um país reconhecidamente machista.


6) Nossa comida não foi eleita a mais gostosa e saudável. Mas estamos entre os campeões globais de uso de agrotóxicos.
 
 
7) Não está escrito em lugar algum que teremos um futuro grandioso pela frente. E se continuarmos maltratando o meio ambiente em nome do consumismo desenfreado, talvez nem tenhamos um futuro.


O melhor de tudo é que quando levantamos indagações sobre quem somos e ao que servimos e conclamar ao espírito crítico, somos acusados de não amar o país, no melhor estilo “Brasil: ame-o ou deixe-o'' dos tempos de chumbo da ditadura cívico-militar.
 
Pois, para muitos, brasileiro bom é brasileiro que sabe o seu lugar. E aceita de forma bovina.


Orgulho de ser brasileiro. Mas nem sempre.
 
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23 de julho de 2015

O Brasil era perfeito antigamente. Daí, vieram os baderneiros*


As coisas eram melhores antigamente. Havia menos violência, as pessoas se respeitavam mais, não questionavam umas às outras, viviam felizes e em paz.

Daí vieram os baderneiros.

Eles só trouxeram confusão e tumultos e fizeram outras sofrerem. O que precisamos é de mais gente ponderada, que não seja nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Que siga o exemplo do Mandela que conseguiu acabar com o Apartheid através do diálogo e que… Hã… Sei… Ah, é? Ele foi um dos articuladores da resistência e acreditava no uso da força como último recurso? Não importa, o que vale é a mensagem que ficou para o mundo. E a mensagem é essa: não se faz transformação social séria sendo radical nas ideias.

O quê? Hum… A Revolução Francesa? Ah, mas isso é exceção! Vi o filme do Lincoln e sei que a liberdade dos negros nos Estados Unidos foi feita sem uma gota de sangue derramado, só na articulação…

Ah… Muita gente morreu e continua morrendo por isso? Essa é a sua opinião, não os fatos e os fatos mostram um presidente negro nos Estados Unidos. Você está se prendendo a tecnicalidades. Policiais matam negros e brancos todos os dias nos Estados Unidos ou no Brasil e… Ah, matam mais negros? Isso é mentira sua.

Entenda bem: não é legítima nenhuma conquista obtida na base da pressão. Greve, por exemplo. Que mérito tem um grupo de trabalhadores que cruza os braços e transforma a vida dos demais cidadãos em um inferno? O empresário já está dando o máximo de si. Se ele diz que não dá para dar um aumento maior é porque não dá e ponto. Esse clima todo de desconfiança na palavra do outro é horrível, gera uma energia super negativa…

O quê? Garantir a estabilidade no emprego? Aumentar a participação nos lucros? Isso aqui não é um país socialista, se o trabalhador quer ganhar mais que abra seu próprio negócio como o empresário abriu, não?

Cadê o bom senso? Por exemplo, estamos vivendo uma ditadura pior que a época do regime militar. Os índios estão saindo de florestas que abandonaram há séculos e agora querem tomar as terras de quem estava lá antes… Sim, antes deles!… Não dá para dizer que o fazendeiro não tem o direito de defender sua propriedade…

Não… Discordo… É diferente… Proteger sua própria fazenda é uso legítimo da força para manter a legalidade. Tá na lei. Eu disse que tá na lei! Só que vocês não entendem o que significa a lei, né? Não gostam de obedecê-la…

Daí aparecem aqueles bandos de sem-teto cracudo e sem-terra vagabundo invadindo prédio e fazenda dos outros e o Estado cai na chantagem e entrega imóveis e terras para eles. Daí esses vagabundos acabam sendo mantidos por conta dessa pressão…

Falta gente ponderada que, ao invés de ficar empurrando os outros com o cotovelo, entenda o seu lugar na sociedade. E se quiser mudar de vida que lute de acordo com as regras do jogo… Não importa quem definiu as regras. Se elas estão aí, é para obedecer, senão vira caos.

E é função do Estado impedir o caos, impedir essas mudanças que vão trazer dor aos homens de bem… Sim, descendo o cacete em vagabundo, devolvendo esses índios indolentes de volta para as florestas, mantendo esses cracudos sem-teto longe. E também deixando claro para gays, lésbicas e travestis não podem impor seu estilo de vida espalhafatoso para cima do nosso… Não, não podem, isso não é casa da mãe Joana, tem que respeitar as regras…

Regras de quem? Nossas regras! Não é uma questão só de qualidade de vida, mas também de sobrevivência. Nossa integridade, tudo o que conseguimos conquistar, estão em risco com esses vândalos.

As coisas eram melhores antigamente. Havia menos violência, as pessoas se respeitavam mais, não questionavam umas às outras, viviam felizes e em paz.

Daí vieram os baderneiros.

Eles só trouxeram confusão e tumultos e fizeram outras sofrerem. O que precisamos é de mais gente ponderada, que não seja nem tanto ao céu, nem tanto à terra…
 
*Eduardo Sakamoto
 
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6 de julho de 2015

Como todos sabemos, não há racismo no Brasil*


Como todos sabemos, não há racismo no Brasil.

Ou exploração sexual de crianças e adolescentes.

O machismo? Uma mentira.

E a homofobia, uma invenção.

Não há genocídio de jovens pobres e negros das periferias.

Ao me relacionar com as outras pessoas, não faço isso só, mas me acompanham séculos de acomodação cultural, de preconceitos e medos dos que vieram antes de mim. Não só a genealogia pesa sobre os ombros, mas também a história e as condições sociais do país. De certa forma, na fala do “agora” está presente toda a história humana.

Se uma criança nasce com a pele mais escura que sua família sofre preconceito da sociedade mesmo que seus pais não tenham sofrido. Se for pobre, pior ainda. Tomando como referência a média salarial, os valores pagos para uma mesma função na sociedade coloca, em ordem decrescente: homem branco rico de um lado e mulher negra pobre do outro.

Para muita gente, basta saber que a outra é negra.

A Justiça que se pretende ao tentar reconstruir a sociedade por um novo viés não é apenas a de saldar a dívida de uma escravidão mal abolida, mas sim a tentativa de mudar o pensamento e a ação de uma sociedade que trata as pessoas de forma desigual por conta da cor de pele.

Ir contra a programação que tivemos a vida inteira, através da família, de amigos, da escola, da mídia e até de algumas igrejas em que pastores pregam que “africanos são amaldiçoados por Deus'' é um processo longo pelo qual todos nós temos que passar. Mas necessário.

Todos nós, nascidos neste caldo social somos potencialmente idiotas a menos que tenhamos sido devidamente educados para o contrário. Pois os que ofendem uma jornalista de forma tão aberta, como foi o caso da apresentadora Maria Júlia Coutinho, da TV Globo, só fazem isso por estarem à vontade com o anonimato (Hanna Arendt explica) e se sentirem respaldados por parte da sociedade.

Toda a vez que trato da questão da desigualdade social e do preconceito que os negros e negras sofrem no Brasil (herança cotidianamente reafirmada de um 13 de maio de 1888 que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho, pois não garantiu as bases para a autonomia real dos ex-escravos e seus descendentes), sou linchado.

Pois, como todos sabemos, não há racismo no Brasil. “Isso é coisa de negro recalcado.''

Ou exploração sexual de crianças e adolescentes. “As meninas é que pedem e depois a culpa é dos homens?''

O machismo? Uma mentira “criada por feminazis para roubar nossos direitos''.

E a homofobia, uma invenção “daquela bicha do Jean Wyllys''.

Não há genocídio de jovens pobres e negros das periferias. “Eles é que estão no lugar errado e na hora errada, pois os 'homens de bem' seguem a lei e nada acontece com eles.''
 
*Do Blog do Sakamoto.
 
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