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Pensamentos aleatórios

31 de julho de 2013

Curso de Medicina em Catalão?! Nem pedindo ao Papa!


Há pouco mais de um ano atrás era noticiado a criação de mais um curso de Medicina da Universidade Federal de Goiás, agora no interior do estado, na cidade de Jataí. Foi, é claro, uma enorme festa: em todo lugar os jataienses comemoravam a conquista; as empresas, colégios e entidades de classe da cidade emitiram Notas Oficiais agradecendo o MEC, o Governo Federal, o Reitor da UFG, os professores do Câmpus Jataí, sempre ressaltando o empenho político do Deputado Federal Leando Vilela, que em articulação com o prefeito Humberto Machado e a Câmara de Vereadores, conseguiram essa façanha em Brasília. Desde então os trâmites legais e burocráticos vem acontecendo para que o curso tenha seu início já no próximo ano (2014): a prefeitura investiu mais de 2 milhões de reais em infraestrutura na Cidade Universitária; a Câmara Municipal aprovou convênio com a UFG cedendo o Centro Médico Municipal e todas as outras unidades de saúde jataienses para que professores e alunos possam trabalhar e realizar estágios; e a UFG está organizando os concursos de professores e técnicos, além da regulamentação do curso em si. O impacto da instalação desse curso na economia de Jataí ainda não foi mensurado, com certeza será enorme, mas nada comparado ao que acontecerá na área da saúde, pois todos os locais de estágio serão modernizados e equipados com o que há de melhor na área, para garantir a formação desses profissionais e o objetivo do programa de Expansão das vagas dos Cursos de Medicina, e quem ganha com isso é a população da cidade: mais médicos, mais dinheiro circulando, mais saúde... é para comemorar mesmo.

Pois bem, isso aconteceu há mais de um ano, nesse meio tempo a UFG, após um debate iniciado aqui no Câmpus Catalão, começou a discutir a atualização de seu Regimento e Estatuto, de forma a preparar-se para o crescimento da instituição e dar mais autonomia aos campi do interior. Essa discussão começou em Catalão principalmente porque o Governo Federal endureceu os critérios para criação de novas universidades e o projeto de autonomia e separação, que já existia no Câmpus Catalão desde 2011 (Projeto da Universidade Federal do Cerrado - UFCer), ficou inviabilizado. O projeto da UFCer era lindo e previa até curso de Medicina (muito antes de o Governo Federal pensar em expandir vagas para o interior), mas teve que ser abortado, justamente pelos critérios técnicos, uma vez que, diziam, a intervenção política não resolveria. No entanto, este ano o Governo Federal, a despeito de seus próprios critérios técnicos, cria mais quatro novas universidades federais (do Cariri - UFCA; do Sul Sudeste do Pará - Unifesspa; do Oeste da Bahia -  Ufob; e do Sul da Bahia - Ufesba) algo que, oficialmente, não era política de governo. Em todas as cidades onde vão ser criadas as novas universidades houve festa, com faixas e carros de som ressaltando o poder de articulação política dos representantes daquelas localidades no Congresso Nacional e junto ao Governo Federal. 

E Catalão, terceira cidade goiana em IDH, quinto maior PIB do estado, com várias instituições privadas de ensino superior, de posição geográfica privilegiada e com um câmpus universitário federal de 30 anos, vendo toda essa movimentação não ficou parada. Movimentou-se e, com muito esforço, conseguiu chamar a atenção da mídia goiana (matéria veiculada no jornal O Popular, de domingo) ao colocar uma faixa na entrada principal do Câmpus pedindo a intervenção do Papa para trazer para Catalão o curso de Medicina. Finalmente, agora sim, teremos médicos.

(Suspiro profundo) 

É por atitudes assim que jamais teremos um curso de Medicina ou uma universidade federal autônoma sediada em Catalão. Em vez de canalizar esforços para provar por A mais B, com dados técnicos, que toda a região sudeste de Goiás se beneficiaria enormemente com um curso de Medicina, aproveitando todo o debate atual em torno do programa Mais Médicos, e provocar as autoridades políticas para apoiar a proposta, optamos por ironizar e fazer uma faixa pedindo a intervenção do Papa! Seria cômico, se não fosse trágico. 

O Papa não trará um curso de Medicina para Catalão, a articulação política e a seriedade dos envolvidos diretamente sim, e o principal: um Deputado Federal comprometido com essa causa. Sim, porque os dois últimos apoiados pelos caciques locais viraram as costas para a cidade logo após a eleição: Thiago Peixoto sequer assumiu a vaga, foi direto para a Secretaria Estadual de Educação, aplicar seu economês na rede estadual de ensino; e Armando Vergílio só voltou para a Câmara Federal após abandonar a Secretaria Estadual das Cidades, por falta de verba, e agora distribui migalhas aos municípios onde foi votado.

E existe uma verdade incômoda que, a exceção de Haley Margon, historicamente os políticos locais não dão bola para a universidade. Ou a tratam como um câncer (Eurípedes Pereira) ou com indiferença (Adib Elias, Velomar e Jardel Sebba), e nenhum reconheceu a importância da instituição para o desenvolvimento da cidade e de sua população como fizeram os políticos de Jataí, com destaque especial para o prefeito Humberto Machado, que cedeu áreas públicas municipais para a instituição e fez, com recursos da prefeitura, a Cidade Universitária, com toda a infraestrutura de água, esgoto, energia e asfalto. Em Catalão os prefeitos (o atual e os dois últimos) apenas pagam o salário de 23 professores ainda vinculados ao município e cedem servidores administrativos que não são aproveitados em órgãos municipais. Investimento como o feito em Jataí, que hoje colhe os frutos, ninguém fez. E nem fará tão cedo, pois o governo de parceria (que também prometeu renovação) prefere pagar ônibus para universitários irem estudar em Uberlândia do que investir na universidade pública existente na própria cidade. 

Não existe mistério e o exemplo de Jataí é a prova que a união da sociedade e dos agentes políticos em torno de uma causa dá resultado, basta querer. O ano que vem está aí e haverá eleições, é o momento da sociedade catalana se posicionar e escolher quem se comprometa com um projeto de consolidação de Catalão como polo universitário no interior do Brasil. Ou não, e fica tudo como está, Catalão conhecida nacionalmente como a terra do "pertim-pertim", do "peixe frito com pinga" e, agora, como "a terra da faixa pro Papa pedindo curso de Medicina".  E quem sabe não dá certo? Afinal, a fé não costuma falhar.

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7 comentários:

  1. Caro Roberto,
    Gostaria de cumprimentá-lo pela lucidez dos argumentos muito bem colocados sobre esta questão. De fato, em particular nos últimos 5 anos, a competência acadêmica e administrativa foi confirmada em diversos empenhos e documentos produzidos com a finalidade de buscar apoios para novos cursos federais em Catalão, alguns, inclusive, antes mesmo da presidente anunciar novas vagas. Porém, é preciso que a sociedade local e regional compreenda, e sobretudo a classe política entenda, que uma Universidade Federal é um investimento do qual muitas gerações são beneficiárias, direta ou indiretamente.
    Abs. Profa. Cida Almeida

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    1. Cida, obrigado por acessar o blog e pelo seu comentário. E é essa a verdade: O Câmpus Catalão cresceu a despeito do que pensa (ou faz) a classe política local. Os dados e os argumentos técnicos para a ampliação da universidade no sudeste goiano já estão prontos, elaborados bem antes de qualquer programa de governo, falta apenas vontade política de colocar o processo para andar.

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  2. Só pra lembrar, o projeto da nova Universidade para Catalão, está pronto! Deu muito trabalho (ainda mais fazer as conta$$$ de quanto ele custaria... e sabe que não foi muito... nem precisava dos 10% do PIB para a Educação). Foi até entregue nas mãos do (na época) presidente Lula. Ele até comentou em seguida sobre o projeto, pedindo ao ministro da Educação (Hadad) "olhar com carinho" para o projeto do pessoal do interior de Goiás. Ficou nisso... na gaveta de algum político desinteressado. Mas também, quem ia querer criar mais 20 e tantos cursos novos (inclusive a tal Medicina), até com cursos para pobres mortais, odonto, engenharias, etc. Afinal, dobrar a quantidade de cursos existentes, não iria trazer mais alunos, não traria mais demanda por aluguel, não traria mais professores federais, não traria mais empregos, isso sem mencionar o fator social. Só pra comparar... a UFU (nossa vizinha em Minas Gerais) tornou-se federal em 1978. Alguém se lembra de Uberlândia antes da UFU... É verdade, a UFU não trouxe nada para o município mineiro, assim como a UFCer não trará nada para Catalão.
    Fica aqui uma pergunta... será que se socializarmos o projeto da UFCer, a população (olha o GIGANTE adormecido aí gente!) teria interesse???? Uma coisa é certa, na gaveta onde ele está é que não adianta ficar!!!

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    1. É desse jeito Marcelão. O povo briga por ingresso barato na pecuária, por entrada gratuita no CRAC e por comida de 1 real, mas quando fala que é a ampliação da universidade... puff! Some todo mundo. E quando a questão é jogada para os políticos locais a resposta é: "A nossa gestão se preocupa com o Ensino Superior, tanto que estamos bancando a ida de 350 universitários para Uberlândia todos os dias"... essa é a ideia que nossos políticos têm de investimento e parceria com a universidade.
      E concordo com você, a saída é socializar mais o projeto para que ele saia da gaveta empoeirada onde está em Brasília e faça parte dos debates do ano que vem, nem que seja para virar promessa de campanha, algo que até hoje nunca aconteceu.

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  3. Temos que ter cuidado, pois acredito que a estrutura dos cursos é algo de extrema importância para a sua qualidade.
    Sou aluno do curso de química e posso afirmar que hoje, o curso funciona sem a mínima estrutura: laboratórios sem aparelhos, falta de equipamentos simples(que por vezes são comprados através de vaquinha feita por professores), professores com baixo nível de didática e falta de conhecimento para aplicação prática por parte dos mesmos.
    Levando isso em consideração, seria mesmo interessante termos mais cursos, para que funcionem nos mesmos moldes dos atuais?

    Fica a pergunta!

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    1. Você está com toda razão: é preciso ter cursos minimamente equipado e com profissionais comprometidos para garantir a qualidade na formação dos futuros profissionais. Esse é um enorme desafio que a universidade tem que aprender a lidar e superar (divisão dos parcos recursos para atender as demandas prioritárias ou urgentes).
      No Câmpus Catalão isso é feito garantindo o maior número possível de livros para a biblioteca, de forma que nenhum curso fique sem os exemplares básicos de sua bibliografia. Mas a carência dos cursos atuais não pode ser usada como justificativa para impedir o início de novos cursos, pois um curso jamais estará plenamente completo, seja com livros, laboratórios, técnicos ou mesmo docentes. Hoje o Câmpus Catalão não tem condições para comportar um curso de Medicina, mas se ele viesse toda sua infraestrutura inicial (mesmo que não atenda ao curso em si) promoveria um enorme avanço ao curso de Enfermagem, por exemplo, ou seja, provocaria uma reação de melhora do curso mais antigo. Não é o melhor caminho (este seria o investimento direto na Enfermagem), mas é uma forma de melhorar a graduação, daí o início de novos cursos sem a consolidação plena dos antigos.
      Mais uma vez ressalto que seu raciocínio está corretíssimo, mas infelizmente em nosso país os gestores públicos precisam usar da forma mais criativa possível os recursos disponíveis, do contrário a coisa não anda.

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    2. Só pra informar... daí a necessidade da publicização do projeto!!!! Nós fizemos os cálculos não apenas para novos cursos, mas também para suprir o que está faltando! Pra dar um exemplo, os últimos projetos (Expansão e REUNI) não levaram em conta a contratação necessária de técnicos administrativos. O projeto da universidade nova corrige este problema, e outros tantos, infra-estrutura, equipamentos, professores, assistência estudantil, etc.

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